terça-feira, dezembro 07, 2004

Bairro-Liceu


Como já referi noutra prosa, quando vim para Oeiras fomos morar para a casa do 43 da avenida Infante D. Henrique. Aí permanecemos cerca de dois anos. A propósito desta casa, segundo me lembro, ela pertencia a um homem do Partido Socialista cujo nome não recordo agora, e que na altura estava preso. Íamos a Nova Oeiras pagar a renda, a casa do advogado dele, que também estava preso!!! Sim, que a Pide adorava prender pessoas, e quando lhe dava para aí, começava numa ponta e acabava na outra. Ia tudo dentro! Às vezes pergunto a mim mesmo como ainda havia pessoas fora da cadeia em Portugal...
Nesse interim em que ali vivemos, e hei-de escrever também sobre esta casa, estava a ser construído o cognominado 'Bairro Novo', do Fundo de Fomento da Habitação, contíguo ao 'Bairro Velho', da mesma instituição (pseudo habitação social...), na antiga Quinta da Medrosa.

O nome desta antiga quinta servia também para designar ambos os Bairros, como 'O Bairro da Medrosa', aglutinando-os numa unidade habitacional que, quando era usada como resposta ao 'onde moras?', habitualmente provocava a pergunta 'no Novo ou no Velho?' ou ainda, mercê da relação topológica, 'no de Cima ou no de Baixo?'.
Era ainda apelidado de 'Bairro das Caixas', não devido ao aspecto ou à qualidade arquitectónica do mesmo, mas derivado de 'Caixas de Previdência', através das quais, julgo saber, era feita a inscrição para obtenção de casa. É, o Bairro, os Bairros, tinha, tinham, muitos nomes...

Mas para a generalidade dos oeirense e mesmo forasteiros, não pasmem porque tem uma explicação muito chã, a simples menção de Medrosa era mais que suficiente para situar o local.
A explicação para muitos forasteiros conhecerem a Medrosa era o facto de a Praia da Torre ser local de veraneio para muitos. Como não existia qualquer espécie de transporte (eu devia dizer 'já não existia'; ao que parece, em tempos remotos, existiu um transporte em carroça), as pessoas faziam o percurso entre a estação de comboios de Oeiras e a praia a pé. O percurso mais curto era precisamente seguindo pela avenida Infante D. Henrique e atravessando pelo meio do Bairro. Mesmo seguindo pelo percurso mais longo e natural, a Estrada Militar (hoje Estrada da Torre), esta bordeja a Medrosa, a bombordo, separando-a dos Lombos, a estibordo.

Faço aqui um pequeno apontamento intercalar sobre os dois Bairros: Para além da qualidade de construção e acabamentos, superior no mais antigo, o Bairro Velho, este era de renda económica. O Bairro Novo era de renda resolúvel, pelo que ao fim de 25 anos as casas passaram automaticamente a pertencer de pleno direito aos respectivos moradores. No Bairro Velho, creio que ao fim dos 25 anos, os moradores tiveram que comprar as casas para ficarem com elas. Acho que pagaram o diferencial entre o que já tinham pago em rendas e o valor das habitações.
Seja como for, havia muita gente a saber onde era a Medrosa e o respectivo Bairro.

Foi para este Bairro da Medrosa, o Novo, que mudámos então, passado algum tempo.
Isto terá ocorrido em 1972, talvez por altura das férias do Verão, visto que só habitámos o 43 cerca de dois anos, e não creio que tenhamos feito a mudança a meio do ano lectivo. Sei que estávamos à espera que acabassem a construção do Bairro e que a casa que fomos habitar ainda esteve habitada por outra família, que a estreou e lá morou durante cerca de um ano.

Lembro-me de, antes de entrar para o Liceu (1973), algumas vezes ir a pé para o Colégio Portugal, na Parede, pela praia fora, só pelo gozo do passeio.
Saía de casa, na praceta Gonçalves Zarco n.º 5, onde habitávamos o 4.º andar, e que os meus pais ainda habitam, seguia pela Estrada Militar até ao Forte de São Julião da Barra, inflectia à direita na direcção da pequena Praia do Moinho, e seguia pelo 'paredão' da Praia de Carcavelos. Dum lado o mar imenso, do outro a Avenida Marginal e a Quinta dos Ingleses. Apenas no fim da praia surgiam as primeiras construções, no Junqueiro, sobressaindo pela dimensão o Hotel Praia Mar e o Hospital Dr. José Almeida, já à entrada da Parede, na Ponta da Rana.
Este magnífico passeio era uma oportunidade excelente para 'catar' toda a espécie de fósseis, existiam imensos espalhados pelo chão junto ao 'paredão', e era só metê-los no bornal. Na sua maioria eram Turritelas, das quais guardo ainda uma meia dúzia. Na Ponta da Rana, próximo dos viveiros, existia também um grande rochedo cuja superfície era um incrível mar de cristais. Não sei o que era. Mas existiam pedaços a juncar o chão à volta, e também aí recolhi alguns espécimes desses cristais que, apesar do meu interesse pela Geologia, nunca soube o que eram. Mas lá bonitos, eram eles! E como faziam brilhar a minha in-fi-ni-ta colecção de rochas, pedras e calhaus!

Durante esse ano lectivo de 72-73, o meu percurso habitual era pela avenida Infante D. Henrique ou pela Estrada Militar, até à estação de comboios de Oeiras. Exceptuavam-se, como já referi, os eventuais percursos a pé pela praia.
Em 1973 entrei finalmente para o Liceu Nacional de Oeiras, para frequentar o antigo 6º Ano. A minha forte apetência pela área científica levou-me a optar pela alínea de Geologia. Apenas dois anos para acabar o Liceu e depois... quem sabe, talvez desse para a Faculdade. Mas muita água correria ainda por baixo da ponte...
O meu percurso a caminho das aulas, que era antes feito entre casa e o Colégio Portugal, mudou então e passou a ser através do Bairro Novo e do Bairro Velho em direcção ao Liceu.
Seguia pela rua D. Filipa de Lencastre, descia a rua à esquerda, rua Infante Santo, hoje serventia do Casal da Medrosa.
Chegando à avenida D. João I o panorama era muito diferente do de hoje. As vivendas na rua Alexandre Herculano já existiam. Mas pouco mais havia, e o que ali estava desapareceu para sempre.

Olhando para a esquerda, via-se o Bairro Velho, e em frente do outro lado da avenida um terreno baldio a confinar com as traseiras das vivendas da rua Alexandre Herculano. Este espaço está hoje ocupado pela Igreja, pelo snack Sentença, e por um parque de estacionamento.
Olhando para a direita, via-se logo ali ao lado uma taberna, genialmente chamada de "Apolo 70", talvez porque a fauna habitual normalmente saía de lá em condições óptimas para entrar em órbita..., frente à qual estava uma enorme e elegante palmeira, que me impressionava pela altura que atingia. Desafortunadamente não tenho nenhuma fotografia da mesma, mas se não ultrapassava a altura dos prédios do Bairro Velho (4 pisos), muito não faltaria. Também esta seguiu o destino de muitas outras espécies arbóreas, trucidadas impiedosamente pela sanha urbanística.
A seguir a esta taberna existia um imenso bairro de barracas que só acabava no fim da avenida, onde esta entronca com o princípio da rua Infanta D. Isabel. Aquele troço de rua que dá acesso ao Lar dos Filhos dos Oficiais e Sargentos, na época ligava directamente à Avenida Marginal. Não existia a rua da Cidade do Mindelo, recente, paralela à Avenida Marginal, que cortou este acesso. Esta referida zona está hoje ocupada por parte do Casal da Medrosa, pelo Pavilhão Desportivo Escolar e pela Escola Preparatória de São Julião. Em frente às barracas, do outro lado da avenida, existia apenas o Campo da Bola, no espaço hoje ocupado por um condomínio privado (mais um...).
Olhando em frente tinhamos a calçada com que termina a rua Infante Santo, que liga à rua Alexandre Herculano, calçada que ainda existe.
Do lado direito desta era também terreno baldio até ao Campo da Bola. Hoje está ocupado pelo Tribunal.
Ainda do lado direito da calçada e bordejando esta existia uma meia dúzia de figueiras que davam os mais doces e celestiais figos que já alguma vez comi. Por isso tantas vezes ali íamos à 'chinchada'. Era à sombra destas figueiras que existia ali um acampamento permanente de ciganos, com os quais, aliás, nunca tivemos problemas.

Sobre estes ciganos conta-se uma história muito engraçada: Aquando da 'campanha' de erradicação de barracas promovida pelo Isaltino de Morais, que acabou com o bairro de barracas já citado anteriormente, diz-se que o presidente terá dado cerca de 100 contos áqueles ciganos para sairem dali e do Concelho.
Eles sair, até sairam. andaram 200 metros mais para o lado e acamparam do outro lado da Estrada Militar!
Ora o 'outro lado' já é pertença do Concelho de Cascais, logo...
No dia seguinte andava o cigano pelo Bairro a conduzir o seu novo triciclo motorizado azul, certamente comprado com a massa recebida do Isaltino, com as ciganas sentadas atrás, e com um sorriso malicioso no rosto, talvez a recordar a cara do Isaltino quando lhe passou as notas para a mão, sim que os ciganos não aceitam cheques.
Se a história é verdadeira ou falsa, não posso confirmar. Apenas confirmo a 'migração' para a 'outra banda' da Estrada Militar, porque vi o acampamento nesse local, onde permaneceu durante largo período, e a cena do triciclo azul, porque a testemunhei.

Enfim, após subir a calçada, virava à direita, já na rua Alexandre Herculano, e pouco depois virava à esquerda, para subir a rua do Liceu, et voilá! Aulas e depois o regresso a casa pelo percurso inverso, com mais uns figuitos pelo caminho, e muito regabofe, que sempre se encontravam amigos pelo caminho e isto de ser adolescente tem muito divertimento à mistura!

Como o Bairro da Medrosa era diferente naquele tempo!

2 comentários:

segla67@sbcglobal.net disse...

Também eu frequentei o Liceu Nacional de Oeiras, até ao ano 1967 quando estava no sétimo ano. Não o acabei pois vim para os Estados Unidos one ainda vivo. Nunca mais voltei ao Liceu. Calculo que tanto ele como a comunidade de Oeiras devem ter mudado muito.... No meu tempo, a distancia entre a estação do comboio e o Liceu era um descampado. Em frente do portão do Liceu havia apenas um descampado onde a malta ia fumar e passar o tempo antes das aulas começarem.

Claro que nunca mais verei nenhum dos meus professores pois todos já devem ter morrido, mas diga-me, no seu tempo ainda lá estavam o Tavares ( portugês), Ardisson ( história) e... porra, esquece-me o nome da minha professora de ingles do quinto ano pela qual eu tinha uma crush ( ou tesão) terrível_ era magrita e bowlegged. Tempos....

Joao

José António disse...

Olá Joãõ (do outro lado do Atlântico :) ).
Seja bem-vindo a este humilde blog.
É muito agradável receber feedback de locais assim tão 'longínquos' como os States.

Esses nomes, entrei para o Liceu em 1973, não me recordam nada. Também como a minha área era Ciências e eu não tinha essas disciplinas de que fala... Lembro-me do Guerreiro (Português), miss Patrício (acho que Inglês; espero que o seu 'crush' não fosse por ela, porra! quando a conheci ...), Calado Lopes e Alberti (Desenho), e mais alguns.

A comunidade e o espaço mudaram mesmo muito. Se não passa por cá assim há tanto tempo, iria ter um choque ao visitar certos sítios. Reconhecer, reconhecía-os, mas as alterações são imensas. Infelizmente, na minha opinião, algumas para pior.

Vá aparecendo e dizendo coisas. Tenho um grupo sobre Oeiras (OeirasReminiscente, link ao lado) e convido-o a partilhar as suas memórias e saberes connosco.

Abraço,