domingo, julho 11, 2004

Agar, a escrava

Foi a primeira vez que fui apalpado de alto a baixo por um homem. Primeira e última, é bom que se saiba.
Seriam talvez umas dez da noite. Lá fora estava escuro como breu pois os candeeiros da rua eram poucos e iluminavam mal. A própria luz no interior do snack Agar criava uma cortina que acentuava a escuridão exterior.
Estava pouca gente no café. Apenas homens, era uma hora imprópria para as senhoras irem ao café, e rapazes, eu era o único. A maioria da fauna presente morava ali no quarteirão ou no bairro velho. O bairro novo, ou estava a ser construído, ou ainda não estava habitado. Fui habitá-lo cerca de um ano após a construção. Ora quando este episódio aconteceu, tenho a certeza, eu morava ainda no 43, lá ao lado do Agar.
O cliente que mais caminhara para ali chegar era o mestre Rocha, pescador, algarvio dos quatro costados que morava numa estranha casa de pedra na praia do Moinho, castigada pelas vagas das invernias tormentosas, ao lado do forte de São Julião da Barra. Era um homem ímpar. Lembro o fascínio que me provocaram as suas habilidosas mãos uma vez em que o vi na praia da Torre a construir um côco (pequeno botezinho de fundo chato, geralmente de pinho e tabopan). As suas mãos metamorfoseavam o pinho como se este fosse barro mole, como se uma antiga e velha cumplicidade ligasse carne e madeira.
Recordo que ele estava sentado ao balcão, de copo na mão, em amena cavaqueira com a rapaziada. Os restantes espalhavam-se em pé pela sala, uns aqui, outros ali ou acolá. Eu, tenho ideia que estava sentado. Todos bebiam e conversavam animadamente.
Contavam como lhes tinha corrido o dia de trabalho se referiam o chefe ou o patrão olhavam primeiro em redor e para a porta e depois uns para os outros e baixavam a voz até um nível quase inaudível, falavam do clima do tempo que chove ou não e se está frio como cornos, mais a merda do funeral que é no domingo daquele sacana que morreu com um ataque cardíaco e deixa viúva e três filhos por criar e reforma ou pensão agarra-te ao pau puta-que-pariu, falavam das vizinhas como aquela é uma boazuda ca-ganda-par-de-mamas-e-ganda-cu e até está separada do marido pelo que, e sempre havia alguém que jurava que já lá tinha ido e que ela tinha uma rata que parecia o túnel do rossio aldrabão foste mas foi o caralho, e olhar em redor aquele fedorento casado com aquela magricelas-tábua-de-engomar-que-nas-mamas-sai-ao-pai muita feia que anda sempre de fato cinzento ós quadrados e que tem pinta de bufo esse cabrão é da legião e um par de murros naquelas trombas ainda é pouco qu'o gajo é que lixou o do terceiro direito, e o filho do outro que tinha regressado a semana passada da guerra felizmente inteiro com os dois bracinhos e as duas perninhas e a piça e os tomates que é o mais importante e que contava a foda de arrebenta-peida que tinha dado no cu da preta na borda da picada em troca duma moeda de cinco coroas, e preciso de vinte continhos onde é que os vou arranjar conheço um gajo que tos empresta mas só através de mim e o gajo come-te trinta por cento e se não pagares no dia que ele diz manda os rapazes dele terem contigo e já sabes como é que é tens muita sorte se ficares vivo queres a massa vai ter comigo amanhã,
Eu, apenas ouvia, ria com as larachas, sempre havia alguém com uma piada nova, e aprendia.
Os três irmãos donos do snack-bar, creio que um era o Miranda e o outro Luís, do terceiro não me lembro o nome, Silva talvez, revesavam-se à vez no serviço. Mas muitas vezes estavam lá todos os três, sobretudo à noite.
Lembrei-me agora, o pai deles era carpinteiro e tinha um jeito fantástico para a profissão. Pelo menos a julgar por uma estante que nos fez e que durou imensos anos (ainda existe; após muitas vicissitudes que incluem ter sido cortada na horizontal e pintada de branco cá pelo je, mantém-se orgulhosa no sotão da casa dos meus pais).
Subitamente, um 'creme-nívea' pára bruscamente à porta e dele saem vários polícias que entram intempestivamente pelo estabelecimento adentro. Uma voz poderosa e autoritária impõe o silêncio. Desnecessariamente, pois perante aquele folclore fascizóide já há muito todos haviam emudecido (eu fui o primeiro, até porque estava calado). A memória é difusa mas tenho ideia que havia também alguns agentes à civil, talvez 'judite' ou 'pevide'. O último polícia a entrar volta-se e fecha a porta atrás de si. Ninguém entra nem sai. A mesma voz ordena que todos tirem para fora os BIs, se voltem para as paredes, mãos no ar apoiadas, braços e pernas afastados, e bico calado pouco barulho aí ao fundo.
E começa a sessão de apalpanço. Os agentes acocoram atrás de nós e de baixo para cima vai de apalpar. Tornozelos, pernas, coxas, por dentro e por fora, tronco, sovacos, braços. Temo que o polícia me descubra no bolso o maço de tabaco e a caixa de fósforos e me denuncie perante o meu pai, o qual ainda ignora que estou a resvalar para uma vida de 'droga'. Ocorre-me: tanto paneleiro por aí que adorava substituir-me nesta hora!
Enfim, terminada a apalpação, a polícia faz o balanço. Não encontraram nada. Nem armas de fogo ilegais, nem panfletos comunistas anti-patrióticos e subversivos, nem coisa nenhuma. Excepção feita para a navalha do mestre Rocha. Uma arma perigosíssima e subversíva, de acordo com eles! Os agentes ensurdecem perante as vozes que explicam que o homem é pescador e que a navalha é uma ferramenta de trabalho, para consertar redes, cortar fio de pesca, amanhar peixe... 'Dura lex sed lex', a lâmina tem mais de dez centímetros, medidos na palma da manápula do agente, e se o homem é pobre e não tem dinheiro para comprar outra, isso não é problema deles. A navalha desliza para o bolso dum agente.
Fica-me a impressão dela ter apenas um carácter justificativo e argumentativo de 'missão cumprida com êxito'... Fica-me uma sensação a que os brasileiros tão inspiradamente chamam sacanagem!
Saem todos após um delicado e educado, anacrónico, como mandam as neps, 'boa noite meus senhores'. Um boa noite que soa a portem bem senão levam um tautau.

Acabou a rusga e ninguém foi preso. A verdade verdadinha é que estas merdas eram só para chatear...

2 comentários:

Anónimo disse...

Zé,

Como de costume, gostei muito.

Mas diz-me lá: Esse bar não é, de certeza no Cais do Sodré?!...

É que a história é igualzinha a muitas que eu assisti.

Com a diferença que "eles" sempre apalpavam também umas gajas. Gastas, é certo, mas gajas de qualquer maneira.

Um abraço,
Val

José António disse...

Ói Val:

Não, este é mesmo o snack-bar Agar, em Oeiras.
E não tem nada a ver com esses do Cais do Sodré que referes.
A não ser talvez pela época.
Naquele tempo havia rusgas em todo o lado.
Aqui, foi a única a que assisti (in loco).

Abraço,