domingo, julho 11, 2004

ai Portugal

Que relação poderá existir entre Oeiras e a Parede, sita que está esta no Concelho de Cascais?
Que a Parede foi em tempos um pequeno lugar atravessado pela estrada Lisboa-Cascais, já o sabemos. Que essa estrada passava por Oeiras, também o sabemos. Que, por estrada, seria difícil, senão impossível, ir de Oeiras a Cascais sem passar na Parede, parece-me uma dedução simples e quasi óbvia. Isto é uma relação, mas não parece muito relevante, assim como também não o parece ser o facto de tanto Oeiras como a Parede terem sido praias-de-banhos com alguma importância nos sécs. XIX-XX. Afinal, toda a Linha, de Algés a Cascais, o foi.
Rio, mar, praia, pesca, hótéis, esplanadas, casinos, são um fio condutor a ligar Algés a Cascais, a unir os dois concelhos, num movimento humano, social, histórico, que a Linha férrea consubstanciaria e a estrada Marginal consolidaria.
Quando vim de Alcácer do Sal em 1969/70 eu nada sabia sobre isto. Mal sabia o que eram concelhos e freguesias e que Oeiras e Cascais eram dois concelhos irmanados por uma longa história. Desconhecia ainda que as estações da CP da então chamada Linha do Estoril, correspondiam mais ou menos a antigos lugares e aldeias ribeirinhas dos citados concelhos.
A relação que para mim existia entre Oeiras e a Parede, era apenas o facto de que a minha vida estava repartida entre ambos os lugares. Em Oeiras, eu residia. Dormia e comia aqui. E depois do jantar via um pouco de televisão, que só transmitia umas poucas horas à noite. Na Parede, eu estudava, brincava, convivia, fazia amigos. Mas como, se o Liceu de Oeiras estava ali tão perto, apenas a cem metros da minha casa?
A explicação é simples e prende-se com o sistema de ensino. Em Alcácer, eu frequentara um colégio particular. Não existia ainda escola secundária na vila, como hoje acontece, e era o Colégio Dr. José Gentil que assegurava o ensino liceal, até ao 5º ano. Os exames, íamos fazê-los ao Liceu de Setúbal, o que era uma aventura. Ora quando vim, eu tinha acabado o 3º ano com aproveitamento e tinha passado para o 4º ano. A minha matrícula no Liceu de Oeiras, ou em qualquer outro, não era permitida. O sistema só permitia o trânsito do particular para o público em anos de início de ciclo, ou seja, 1º ano, 3º ano e 6º ano. Eu podia matricular-me, mas tinha que o fazer no 3º ano, o que implicava atrasar um ano os estudos (o que acabou por acontecer na mesma, mais tarde, mas isso é outra estória). Para me matricular no 4º ano só existia uma possibilidade, fazê-lo num colégio particular.
Neste plano a Linha não oferecia muitas alternativas. Alternativas que não fossem muito onerosas, claro. Que me recorde existiam: Os Salesianos, colégio de religiosos, no Estoril; o Portugal, colégio exclusivamente masculino, na Parede; os Maristas, também de religiosos, em Carcavelos; o St. Julian's, chamado 'dos ingleses', também em Carcavelos; o Bafureira, apenas feminino, na Parede; provavelmente existiam mais alguns, mas tão dispendiosos ou com acesso apenas mediante 'cunha', que nem me lembro deles.
A escolha recaiu sobre o Portugal. Era muito acessível, mesmo ao pé da estação, e eu tinha também estação à porta de casa, bastava-me o passe de estudante Oeiras-Cascais
A propósito, uma curiosidade: ainda tenho o passe de estudante Oeiras-Cascais com o último bilhete mensal, 2.ª classe, que comprei. Em Junho de 1973 o bilhete custava 47$50, na moeda actual 0.24€ ! Hoje parece uma ninharia mas na altura era muito dinheiro.
O Colégio Portugal, dizia eu, não era dos mais caros, eu conseguia vir almoçar a casa, enfim, lá me matricularam no Portugal. Oeiras e a Parede 'linkavam-se' por meu intermédio, diríamos em gíria Internet.
A maior parte do dia passava-o na Parede. Por isso tanto tempo demorei até ter amigos em Oeiras. Durante o tempo de aulas, como já referi, só cá estava para dormir e comer. No resto do ano, férias incluidas, passava a maior parte do tempo metido em casa.
Quando puder hei-de falar do Colégio Portugal, que tinha uma característica que o tornava especial. Era uma das poucas alternativas ao ensino público e, por isso, muito procurado por aqueles que não podiam frequentar este. Nomeadamente alunos que tinham sido expulsos dos Liceus de Cascais e Oeiras, habitualmente devido a mau comportamento. Eram os 'meninos maus das famílias boas'... Conheci toda a sorte de 'bandidos'. Deixo isso para outra altura.
Foi esta vida dupla que me levou tanto tempo a assumir-me um filho de Oeiras. Dois acontecimentos concorreram para que tal acontecesse. O ter começado a frequentar a praia da Torre em 1971 e o meu ingresso no Liceu de Oeiras em 1973. A partir daqui comecei a ter imensos amigos e amigas em Oeiras e comecei a frequentar a 'minha' terra com grande intensidade.

Oeiras nascia para mim. Eu retribuia-lhe.

2 comentários:

Ashera disse...

Que bom encontrar as tuas memorias José.
Estudei pela mesma altura no colegio Portugal, fui lá para buscar o meu certificado de habilitações e disseram-me que o arquivo tinha ardido e não podiam fazer nada...sabes de alguma coisa?
Poderás ajudar-me a resolver este problema?
Por favor escreve para o meu email:
ashera08@gmail.com
É urgente
Muito obrigada
Beijos

José António disse...

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Olá Ashera,

Enviei um mail com a resposta que me é possível.

Boa Sorte!

bjs

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